ULISSESCÃO - ULISSES TAVARES

Todos contra um, todos por nenhum

Que o Brasil é complicado até para os brasileiros, os nativos, todo brasileiro sabe. Nós todos, eu, você, na arquibancada ou batendo o pênalti decisivo, admitimos facilmente que somos todos...

339

27/04/2017 às 09:30
Por Redação

Que o Brasil é complicado até para os brasileiros, os nativos, todo brasileiro sabe.

Nós todos, eu, você, na arquibancada ou batendo o pênalti decisivo, admitimos facilmente que somos todos fodidos pelo pau brasil enfiado em nossos rabos desde o descobrimento.

Mas muito raramente, dificilmente, nuncamente, admitimos que somos, cada um de nós, responsáveis pela porra toda sem que a gente faça porra nenhuma para mudar.

Como eu não o responsável porisso nem por aquilo, alguém tem de ser o culpado.

Não pode ser o Tio Sam. Afinal ele nos deu o deus do consumismo.

Também não pode ser o Tio Karl Marx. Afinal ele nos deu o deus do comunismo.

Nem o Tio Jesus Cristo. Afinal ele nos deu o deus do conformismo.

Então sobrou apenas um culpado: o outro brasileiro.

Você não pensa como eu penso, você não faz o que faço, você não se diverte como me divirto, você não reza como eu rezo, você não goza como eu gozo, você não vota como eu voto, você não defende a causa que eu causo, você não se encaixa na minha tribo, no meu umbigo, na minha ego trip?

Pronto. Está resolvido, declarado, rotulado, engaiolado. A complexa questão, equacionada, enquadrada, encaixotada e despachada burlando a alfândega da razão e do coração.

Ufa, o inimigo é o outro brasileiro!

E ai dele se ousar desafiar meus conceitos, preconceitos, despeitos.

Como fez esse petulante, o tal do Ulissescão, alter ego de um dito poeta, metido a defensor dos animais, deve ser bicha pois briga até pelas lagartixas, são benedito branquelo, hippie que nunca será hipster, budista que baba nas bundistas, brasileiro como nós mas em nada igual a nós em nossa inabalável certeza que nóis é nóis e o resto é josta,

Ele, o indigitado, deletado, complexado, prepotente coitado, teve a ideia de vender balinhas nos faróis de cruzamentos de ruas movimentadas de São Paulo. Isso para ajudar, pagando o mico, de auxiliar os micos, cachorros e gatos abandonados nas ruas.

Cada saquinho de balinhas dele trazia um poeminha escrito à mão. Coisa de crente. Crente no humanismo, no quixotismo, no neo iluminismo. E ainda carimbou o slogan “Balas perdidas de amor” em tudo isso, vendendo no varejo o que se vende por quilo.

Resultado de meses fazendo isso e aquilo? Zero.

A reação dos vendedores contumazes nos faróis foi menos hostil mas bem assertiva: a causa dos bichinhos é nobre, cara, mas nós precisamos comer, ninguém está aqui porque quer mas porque precisa. Sai fora, pega seu chapeuzinho e sai de fininho.

Os baladeiros, já breacos no esquenta, me deram algumas moedinhas e beijinhos de gorjeta.

E os esquerdistas, em seus carrões, me deram bons conselhos pra esquecer os bichos e passar a cuidar do povo. Isso sim dá dinheiro, monta uma onguezinha pra ver.

E os direitistas, em seus carrões melhores e mais turbinados, me deram também bons conselhos: objetivamente, sai dessa playboy.

Esses brasileiros típicos, arquetípicos, esteriótipos, exoesqueletos do passado, androides dispensáveis do futuro, estão certos. Eu que estou errado.

Vou continuar vendendo inocentes balinhas perdidas de amor apenas em ambientes amigáveis aos animais e poetas vira-latas como eu.

Como dizem poraí, hipócriticamente, sou brasileiro e não desisto nunca. Não tenho tempo para esperar o Brasil mudar. Nem os bichinhos que quero ajudar. Eu tenho, como eles, fome de viver.

Ulisses Tavares é um brasileiro dispensável sem justa causa. Coisas de poeta.

 

 

 

 

 

 

 

Gostou? Colabore com a ANDA Saiba como