TÃO DO BICHO - PAULA BRÜGGER

Media watch: Folha de S. Paulo promove “antialérgico”

Você conhece alguma variedade de brócolis, beterraba ou cenoura que precisa ser “engenheirada” para ter uma boa digestibilidade pelos humanos? Ainda que certos alimentos provoquem algum tipo de intolerância ou...

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13/09/2016 às 06:20
Por Redação

Reprodução/Folha de S. Paulo

Reprodução/Folha de S. Paulo

Por Paula Brugger

 “Lá em cima do piano tinha um copo de veneno, quem bebeu morreu!” (Cantiga de Roda)

Você conhece alguma variedade de brócolis, beterraba ou cenoura que precisa ser “engenheirada” para ter uma boa digestibilidade pelos humanos? Ainda que certos alimentos provoquem algum tipo de intolerância ou alergia (vide a onda do glúten, hoje) nenhuma categoria alimentar recebe mais atenção da comunidade científica e da mídia do que a dos produtos de origem animal.

Pois bem, o jornal Folha de São Paulo nos brindou recentemente com mais uma matéria nesse sentido. Na reportagem cujo título é “Cientistas de SP obtêm leite de vaca que não dá alergia” (nota), o jornalista Phillippe Watanabe inicia seu texto com a história supostamente comovente de uma vaquinha mineira, de nome Caravela, que “permitiu que Túlio Madureira, 30, um produtor de queijo artesanal que não podia tomar leite, recuperasse um pouco do gosto pela vida. A vaca produz um leite diferente, que não faz tão mal para o sistema gastrointestinal. Pensando em quem tem problemas como o de Madureira, uma pesquisa tenta criar mais Caravelas pelo país”.

Já li diversas matérias jornalísticas que tratam da venda de leite, mas confesso que ainda não havia visto uma que começasse com uma argumentação tão naïve: a história de uma vaquinha que, com seu leite, fez um ser humano (não seu bezerro) recuperar um pouco do gosto pela vida!  Ah, se o gosto pela vida se resumisse a tomar leite… Interessante é que, desde o início, a reportagem adverte que se trata se um produto insalubre: Caravela produz um leite que não faz “tão mal” para o sistema gastrointestinal. Ou seja, o “produto” seria menos nocivo do que outros leites, mas nem por isso pode-se afirmar que seja saudável.

A matéria prossegue dizendo que Madureira não está só: os problemas decorrentes do consumo de leite são comuns porque cerca de 2/3 da população mundial tem deficiência em lactase, uma enzima responsável pela quebra da lactose (o açúcar presente no leite). Sem ela, cria-se um paraíso para bactérias que causam problemas como gases e diarréia. O texto diz ainda que, entre refluxos e indisposições intestinais, um médico encontrou três úlceras no esôfago de Madureira, sendo o leite o provável culpado (sic!). O rapaz teve que parar o consumo de leite, até chegar Caravela. Segundo o pesquisador Aníbal Vercesi (Instituto de Zootecnia de São Paulo) a vaca, da raça gir leiteiro, pode produzir um leite isento ou com pouca betacaseína tipo A1, o que tornaria o líquido mais saudável, com menos chances de causar problemas alimentares.

A Ciência e a técnica a serviço do especismo

Mesmo com todos esses problemas, concretos e potenciais, pensando em pessoas como o jovem Madureira (não nos animais!), deseja-se desenvolver um leite que dê uma espécie de “rasteira” na evolução: se 2/3 da população é deficiente na tal enzima (fora outros problemas), isso indica que o leite não foi um alimento importante para a evolução dos humanos, exceto em determinadas regiões e/ou circunstâncias (nota 2).

A reportagem segue relatando uma pesquisa do Instituto de Zootecnia de São Paulo que, partindo do princípio que o leite com betacaseína tipo A2 é menos alergênico, deu início à inseminação de vacas da raça gir leiteiro, visando à criação de animais que só produzem leite com essa proteína.

Chega a ser patética a forma como os humanos se referem eufemisticamente ao estupro desses animais indefesos. E a violência atinge também os machos da espécie, cujo líquido seminal é um “insumo” indispensável para viabilizar essa maquinaria  macabra, cujo objetivo é atender ao paladar humano.

Após um infográfico que explica a origem de tais proteínas do leite e seus supostos benefícios para os humanos, lamenta-se o atraso do Brasil no que toca a essa questão. A professora de nutrição da Unicamp, Adriane Antunes, cita avanços em outros países, como o caso da empresa neozelandesa The A2 Milk Company, especializada em leite A2. Ela questiona, porém, os benefícios desse leite, dependendo do que está em jogo: por exemplo, se forem doenças relacionadas à gordura no sangue, seria melhor tomar leite desnatado. Ela afirma também que ainda são necessários mais estudos sobre o leite A2. “Não há uma conclusão respaldada pela ciência de que dê tanto efeito assim”, conclui.

Aqui é impossível não lembrar de um diálogo do filme “Ponto de Mutação” (nota 3) no qual afirma-se que nossa cultura aposta na “intervenção”, em detrimento da “prevenção”. Nada mais acertado para a presente discussão: no contexto de uma sociedade capitalista e dominada pela razão instrumental, a manutenção desse hábito alimentar pouco saudável abre mercado para outros produtos e práticas destinados a contornar os problemas advindos do consumo de lácteos, desde os mais simples até fármacos, e  mesmo intervenções cirúrgicas.

Uma criança de seis anos faria a pergunta óbvia que não quer calar: não seria melhor não tomar leite? Afinal, por que um “produto” que necessita de tantos ajustes, interferências e modificações ainda é considerado saudável? A resposta está, evidentemente, no poder político e econômico subjacente ao setor da pecuária (nota 4).

O artigo termina com a pergunta: tomar leite faz bem? Diz a professora Adriane – autora de um livro sobre os mitos do leite – que é um erro afirmar que o ser humano não pode consumir leite de outros animais.  Ela afirma que a flexibilidade alimentar foi importante para a sobrevivência e evolução humanas e que, apesar de ser possível ter uma dieta equilibrada com boas fontes de cálcio, sem ingestão de lácteos, a recomendação diária é atingida mais facilmente quando os lácteos estão presentes.

Aqui alguns comentários são pertinentes. É claro que seria um erro afirmar que os seres humanos não podem consumir leite de outras espécies, da mesma forma que seria errado dizer que os seres humanos não podem ingerir produtos com agrotóxicos ou com nanopartículas. Entretanto, existe uma diferença entre “poder consumir” e “ser saudável”. Provas disso encontram-se fartamente discutidas na própria matéria! De fato, a flexibilidade alimentar foi importante para a sobrevivência humana, mas o que é ou foi válido em dado período histórico (e mesmo geológico), ou para determinados grupos étnicos, pode não ser mais adequado no presente. Muitos hábitos (alimentares e outros) que tiveram um valor adaptativo no passado podem ser até lesivos no momento atual. Vale destacar também que, de cerca de um século para cá, houve uma verdadeira erosão genética no que diz respeito à nossa alimentação (nota 5). Isso vem impactando a nossa saúde de diversas formas. Sobre a questão da recomendação diária de cálcio ser atingida mais facilmente quando os lácteos estão presentes também pairam controvérsias (nota 6).  Por ultimo, é preciso discutir uma questão crucial de ordem ética, uma vez que  tais “produtos” são provenientes de animais que são explorados de diversas formas: o estupro, o confinamento, as mutilações e a separação dolorosa de mães e filhotes. Bezerrinhos machos (com pouco ou nenhum valor econômico) têm uma vida breve, porque logo são vendidos para matadouros. As fêmeas terão de amargar o mesmo destino cruel de suas mães. No fim, todos e todas são assassinad@s. Recomendo, nesse sentido, um magnífico texto de Peter Singer intitulado “Lá na fazenda industrial…” (nota 7). Como fêmeas, pertencentes à classe Mammalia, as mulheres, de forma geral (incluindo as cientistas), deveriam ser as primeiras a ter sensibilidade e compaixão para com essas mães e filhotes, seres sencientes capazes de experimentar sofrimentos da mesma forma que nós (nota 8).

Quanto ao consumo de leite, encerro completando a frase do inicio deste texto:

“Lá em cima do piano tinha um copo de veneno, quem bebeu morreu, o azar foi seu! Nota 9

Infelizmente, porém, o azar é sobretudo dos animais que morrem para nos fornecer, à força, esse produto insalubre. Basta: Milk is murder!

Notas:

(1): 10/09/2016, Seção “Equilíbrio e Saúde”; B7
(2): Veja, por exemplo, Lactophiles and Lactophobes: Milk Lovers and Milk Hater, no clássico livro “Good to eat – riddles of food and culture”, do antropólogo Marvin Harris.
(3): Ponto de Mutação (Mindwalk),de 1990, dirigido por Bernt Capra.
(4): Nas eleições de 2014, a empresa JBS (Friboi) foi listada como a maior doadora, sem qualquer discriminação ideológica revelando, claramente demonstrando a sua determinação em preservar o seu poder político e econômico. Veja aqui.
(5): Desde 1900, cerca de 75% da diversidade genética vegetal foi perdida; Apenas três de vegetais – arroz, milho e trigo – contribuem com quase 60% das calorias e proteínas obtidas por seres humanos a partir de plantas. Veja mais na FAO.
(6): Veja, por exemplo, este texto.
(7): SINGER, Peter. Lá na fazenda industrial… In: Vida ética: os melhores ensaios do mais polêmico filósofo da atualidade. Tradução de Alice Xavier. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002, p. 83-94. Veja mais informações aqui  e no vídeo Dairy: the industry explained in 5 minutes
(8): Veja 10 motivos pelos quais mães e filhotes não devem ser separados
(9): Veja a cantiga de roda
 

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