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Vaquejada na TV: O discurso especista e opressor de Fernando Gabeira

Nauseante é um adjetivo que qualifica a forma como Fernando Gabeira defendeu abertamente, em seu programa do dia 3 de julho de 2016 [1], a prática cruel denominada vaquejada. Ele...

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05/07/2016 às 06:00
Por Redação

Foto: Reprodução/Vaquejada e CIA

Foto: Reprodução/Vaquejada e CIA

Nauseante é um adjetivo que qualifica a forma como Fernando Gabeira defendeu abertamente, em seu programa do dia 3 de julho de 2016 [1], a  prática cruel denominada vaquejada.

Ele inicia o programa anunciando que a vaquejada é um “esporte tradicional do Nordeste” e comenta que a legalidade de tal prática está sendo questionada no Supremo Tribunal Federal. Embora tenha afirmado que, por essa razão, se trata de um tema polêmico, Gabeira violou um dos pilares mais básicos do bom jornalismo: deixou de ouvir os lados opostos no que tange à questão.

Numa postura totalmente parcial, ele elogia várias vezes o tratamento exemplar supostamente dispensado aos cavalos (que segundo ele, desfrutam até de ar condicionado em suas viagens – sic), mas diante de cenas de bovinos aterrorizados, sendo violentamente arremessados ao chão, limitou-se a tecer comentários pretensamente técnicos, com a clara intenção de dar um ar de neutralidade na questão e pior: minimizar o tratamento covarde que recebem tais animais, subjugados sem chance de defesa, nas provas descritas.

Gabeira, que se diz ambientalista, parece desconhecer o artigo 225 da CF, sobretudo o parágrafo VII que postula como dever “proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade” (grifos nossos). Em outras palavras, a crueldade inerente à vaquejada a torna automaticamente algo inconstitucional.

Foto: Reprodução/Vaquejada e CIA

Foto: Reprodução/Vaquejada e CIA

Todavia, a tosca matéria – que oscilou entre o enaltecimento do caráter desportivo da prática e a importância econômica para os que dela participam – deu a entender que deixar de ser vaqueiro é como deixar de respirar, como se alternativas a essa atividade não pudessem ser desenvolvidas.

De fato, se depender de Gabeira, alternativas não devem mesmo surgir. O programa foi tão ostensivo em promover escancaradamente a vaquejada que, além de não haver nenhum depoimento contrário à “festa”, houve uma longa fala do prefeito de Juazeiro – um vaqueiro “de carteirinha” – e inúmeras outras declarações favoráveis por parte de pessoas envolvidas em diferentes níveis e etapas de tal expediente.

Gabeira menciona várias vezes o “bom tratamento” que recebem os cavalos nessa indústria voltada, segundo ele, ao bem estar (sic) dos animais. Ele não percebe, ou finge não perceber, que algumas benesses que recebem os cavalos visam única e exclusivamente à manutenção dos vultosos lucros dos proprietários desses animais. Em sua miopia especista não vê (ou tenta iludir o telespectador) que o verdadeiro valor dos eqüinos é meramente instrumental. Isso fica claro quando são reportadas as cifras astronômicas referentes ao valor de animais bem treinados para a vaquejada, um adestramento que, ainda que não fosse cruel, não é do interesse dos animais e sim de seus “donos”.

Foi também patético o fato de Gabeira se referir à farra do boi [2], mas não ter discutido  a existência de um acórdão do Supremo Tribunal Federal que proibiu a prática. Tanto a vaquejada quanto a farra do boi submetem a mesma espécie animal, de forma direta, a maus tratos: os bovinos. Se uma é considerada crime, por que a outra não segue a mesma norma? Além da Constituição Federal, comentada antes, ambas as práticas são previstas como crimes pela Lei 9.605/98.

Fernando Gabeira revelou nessa deplorável peça jornalística seu total despreparo para debater o tema. Mostrou a que veio: deu voz a um colega político e não aos defensores dos direitos animais, enganou o telespectador no que diz respeito à crueldade subjacente à vaquejada e alimentou um apelo emocional piegas no que toca às vidas dos vaqueiros, transformando-os em vítimas – sem alternativas – de uma eventual proibição da “festa”.

A defesa da vaquejada, por parte de Gabeira, se deu no limite de uma visão de mundo antropocêntrica e especista dentro da qual os animais não humanos são vistos como  objetos inclusive para nossa diversão.

Para muitos maus políticos (e outros profissionais, como Gabeira) é conveniente estimular práticas como a farra do boi e a vaquejada, transformando os indefesos animais em moedas de troca, como é o caso de vitórias nas urnas. Tais péssimos cidadãos são os mesmos que decidem pelo aumento de passagens, pela ocupação urbana desenfreada e pela degradação do meio ambiente. Destroem a possibilidade de plenitude das vidas dos menos favorecidos em termos de renda, roubando-lhes assistência médica e educação de qualidade.

Esses tristes espetáculos se constituem num grande “circo” cuja energia poderia ser canalizada para a reivindicação de direitos desrespeitados e expressões artísticas genuínas. Quem estimula tais “festas” não é “amigo do povo”. Quem ama seu povo lhe dá educação. Não “panis et circensis”!

Se ambientalista fosse, de verdade, Gabeira saberia que, diante da fartura de estudos que atestam os impactos ambientais causados pela pecuária em todo o mundo, é hora de promover ações que ofereçam alternativas à pecuária.

E se tivesse um mínimo de consideração para com os animais, lutaria para abolir os maus tratos a esses seres sencientes que, como nós, são sujeitos de suas vidas.

Notas:
[1]: “Vaquejada é uma tradição no Nordeste cuja legalidade está em discussão no STF”; 03/07/2016; Globo News.
[2]: Veja, por exemplo, a matéria da ANDA.

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