Bichos - martha follain

Cães de raça

Mas afinal, o que são “cães de raça”? Rigorosamente não há o que justifique o conceito de “cães de raça”, já que todos os cães descendem do lobo cinzento, “canis...

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23/09/2014 às 13:30
Por Redação

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Mas afinal, o que são “cães de raça”? Rigorosamente não há o que justifique o conceito de “cães de raça”, já que todos os cães descendem do lobo cinzento, Canis lupus, sendo os cães uma subespécie, chamada Canis lupus familiaris, que tem seu DNA compartilhado em 99,6% com seus ancestrais selvagens. Seres humanos têm domesticado lobos há, aproximadamente 100 mil anos, e mais intensamente, entre 19 e 30 mil anos, praticando a seleção artificial.

Atualmente há outras correntes de pesquisa, de acordo com evidências arqueológicas, que colocam o cão como descendente não do lobo cinzento, mas do lobo árabe, “canis lupus arabs”, do sudeste asiático, médio oriente ou norte da África e/ou do lobo indiano, “canis lupus pallipes”.

Lobos, cães, chacais, raposas coiotes, gatos, hienas, guaxinins, ursos, focas, doninhas e pandas vermelhos descendem do mesmo animal, o “miacis”, um animal que vivia na Ásia há 60 milhões de anos e era semelhante a uma doninha.

Os lobos foram domesticados pelo homem e com isso, deram origem às diversas espécies de cães existentes hoje. A rigor, o conceito de “raça pura”, não existe. Todos os cães, do São Bernardo ao yorkshire ao srd (sem raça definida), todos descendem dos lobos. As diferenças de tamanhos e atributos resultam de manipulações genéticas do homem. A maior parte das “raças de cães” conhecidas atualmente, surgiu nos últimos 100 anos.

Segundo Sergio Greif, biólogo, em seu texto “Você faz questão de um cão de raça? Pense duas vezes” – “Os Kennel Clubs criaram o sistema de registro de raças, onde das milhares de linhagens selecionadas ao longo destes 100 mil anos de domesticação e que persistiram até os dias de hoje, entre 150 e 400 variedades são hoje reconhecidas como raças (o reconhecimento de uma determinada linhagem como raça varia de Kennel Club para Kennel Club)”.

Segundo o artigo, a criação de “cães de raça” só existe para atender a padrões de estética humanos. É um hobby, uma futilidade. Seres humanos que de fato gostam de cães não fazem distinção entre “cães de raça” e srds. “Sim, a exploração de cães em canis é uma forma de exploração animal tão grave quanto qualquer outra (…)

Porque o objetivo de um criador é o lucro e ele só alcança esse lucro se conseguir maximizar sua produção”, diz Greif em seu artigo. Cada fêmea matriz deve ter o máximo de filhotes no menor tempo possível. Essas fêmeas são “animais condicionados a viverem por toda a sua vida em gaiolas recebendo apenas água e alimentos, produzindo ninhada atrás de ninhada, até que sua vida reprodutiva acabe e seja ela mesma comercializada ou abandonada em algum local”, afirma o biólogo.

E o mais aterrador é que alguns criadores confessam já terem sacrificado animais saudáveis simplesmente pelo fato de não atenderem a alguma especificação bizarra do Kennel Club.

O ganhador de uma exposição, sendo puxado por uma coleira apertada ao seu pescoço. (Foto: NBC)

O ganhador de uma exposição, sendo puxado por uma coleira apertada ao seu pescoço. (Foto: NBC)

As exposições de animais ditos “de raça”, são um tormento para esses bichos, que são expostos para o “público” e eles não têm outra escolha. São abusados por seus próprios tutores que os expõem como se fossem troféus – não há divertimento na exploração de cães (gatos e outros animais também) que apenas estão ali para saciarem o distorcido senso estético de seres humanos que dizem que adoram seus animais. Só participam dessas exposições animais de “raça pura” – os que são forçados a se reproduzem para preencherem peculiaridades físicas determinadas, e criadores obcecados acabam fomentando acasalamentos consanguíneos, o que certamente provoca muitos desastres genéticos, criando características prejudiciais ao bicho e muitas doenças. Há várias exposições pelo mundo, e nos EUA, essas transmissões pela televisão atraem um público de cerca de 20 milhões de americanos, segundo o New York Daily News.

E o enorme equívoco é a mensagem subliminar, é o que está por trás desses shows de horrores: a promoção da “raça pura” para comercialização, onde os animais são apenas vistos como mercadorias, produtos. Enquanto isso, milhares de animais aguardam adoção nos abrigos e outros tantos vagam pelas ruas. Infelizmente ainda há procura por “cães de raça”, resultante de um pensamento egoísta, insustentável e completamente inconsequente.

Animais se reproduzindo com a finalidade de produzir essa ou aquela “raça”, causa problemas genéticos seríssimos com sofrimento para os cães. Os “cães de raça” possuem muitas doenças que os srds não possuem. Os problemas de saúde hereditários, muitas vezes, fazem da vida desses animais um verdadeiro inferno. Há mais de 500 doenças genéticas conhecidas nos cães, por falta de variabilidade genética.

Segundo o referido texto de Sergio Greif, “…raças como os poodles apresentam diversas doenças endócrinas, tumores de mama, hidrocefalia, epilepsia e outras doenças. Cockers manifestam grande incidência de cataratas, glaucomas e doenças da retina, doenças dos rins e displasia coxo femural.

Pit bulls, rottweilers e pastores alemães também apresentam maior incidência de displasia coxo femural. Outras doenças características do pit bull são a sarna demodécica, problemas de rompimento do ligamento cruzado e parvovirose. A parvovirose também incide com maior frequência em rottweilers, que também sofrem com maior frequência de problemas relacionados ao complexo gastroentérico. Pastores alemães manifestam maior incidência de ataxia, epilepsia, doença de Von Willebrand (problemas de coagulação), cegueiras causadas por pannus oftálmico ou queratite superficial crônica. Labradores são acometidos por cerca de 20 doenças genéticas, entre elas displasia coxo femoral, retinal, catarata, ausência de testículo, etc.

Dachshunds apresentam alta incidência de artrite. Além disso, sua coluna longa ocasiona maior incidência de problemas de coluna, hérnia de disco, eles são mais propensos a desenvolver problema de cálculos renais, tumores mamários e otites. Como os animais com pernas mais curtas são mais valorizados, essa característica é selecionada pelos criadores, ocasionando em animais com pernas tão curtas que acabam arrastando a barriga e as orelhas no chão. Entre os yorkshires existe maior propensão à endocardiose, hidrocefalia, diversas afecções dermatológicas, musculoesqueléticas, cânceres de testículo e de hipófise, colabamento traqueal, hiperadrenocorticismo, nefropatias e afecções urinárias diversas, várias gastroenteropatias, catarata, atrofia da retina, distrofia da córnea, conjuntivite. O pinscher, além da sarna demodécica, com frequência apresenta epilepsia, problemas cardíacos e problemas de luxação de patela (rótula), que pode até demandar uma cirurgia…”.

Portanto, jamais, jamais pense em comprar um cão dito de “raça pura”. Adote, adote com seu coração.

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