Dennis Zagha Bluwol – Ecoveganismo

O problema do discurso vegano antiaquecimento global

Com base nas críticas ao aquecimento global por razões antrópicas, a indústria pecuária começa a desenvolver novas tecnologias. Associar o discurso vegano à crítica ao aquecimento global pode vir a...

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16/06/2010 às 11:23
Por Redação

Algo que costumo fazer em textos e falas é defender a união do pensamento vegano ao pensamento ecológico, ou seja, a necessidade de pensar o veganismo de forma ecossistêmica. Neste momento, torna-se necessário fazer um porém sobre alguns limites deste argumento.
Nesta segunda-feira de carnaval, 15/02/2010, assistindo no programa Roda Viva da TV Cultura a uma entrevista com Carlos Nobre (climatologista do INPE), uma questão que precisamos ter em mente foi discutida.
Quando perguntado sobre as relações da pecuária com o aquecimento global, Nobre elencou com a maior naturalidade mudanças tecnológicas que diminuiriam a emissão de gases de efeito estufa para a atmosfera, além de outros impactos ambientais. Uma delas: aumentar a densidade de bois por hectare na pecuária extensiva (que é a praticada no Brasil). Outra: “aprimorar” geneticamente as rações e os animais para que estes cresçam mais rapidamente e possam ser mortos com menos tempo de geração de impactos. Ainda outra: em locais de pecuária intensiva, como no Japão, para diminuir a emissão de metano, os animais ficariam confinados durante toda a vida em uma edificação fechada e todos os gases emitidos seriam canalizados para a produção de energia.
Aí está a resolução para todos os problemas criados pela tecnologia: mais tecnologia. Nunca ética ou direitos.
Acho que é preciso que pensemos que, quando batemos na tecla dos impactos ambientais da pecuária, estamos alimentando um tipo de discurso que será um tiro no pé a cada vez que esta indústria realizar alguma mudança tecnológica (e seu respectivo marketing em propagandas e jornalismos pelo mundo). Se eles neutralizarem emissões de gases estufa e diminuírem os impactos da pecuária extensiva confinando o gado ao máximo em ambientes controlados, não só seremos motivo de chacota por parte da opinião pública, mas teremos feito o trabalho de marketing prévio dos problemas atuais resolvidos pela tecnologia do futuro próximo (e estão trabalhando seriamente nisto, pois não só é bom para o marketing ecológico, mas aumenta os lucros da produção). Assistiremos à imposição de mais confinamento e sofrimento para os animais de forma que a massa (como há tão pouca diversidade de opiniões na opinião pública) a ache positiva, já que o gado começa a ser mundialmente reconhecido como um grande culpado pelo aquecimento global.
Tenho pra mim que o aquecimento global antrópico é mais uma agenda política e econômica do que uma questão ambiental. E mais: tira o foco de questões ambientais muito importantes e já existentes, destruições, poluições etc., que necessitariam de uma mudança radical em nossos modos de vida, uma ruptura com nossa maneira de consumir, com os valores hoje tidos como os desejados. Não é difícil entender o porquê de o aquecimento global ser tão propagandeado em noticiários, mídias de todos os tipos, assunto de ônibus, botecos e universidades.
Não podemos entrar nessa de repetir os discursos midiáticos planetários tentando usá-los a nosso favor. Possuímos discursos e argumentos muito mais sensatos e profundos. Assim, quando proponho entender o Veganismo de forma ecossistêmica, é bom que fique claro que isto não significa entrar em qualquer discurso existente sobre a questão ambiental de forma acrítica, sem ver quem é que está produzindo o discurso, quais podem ser os objetivos.
Continuar divulgando a questão do aquecimento global como uma forma de ativismo pró-vegetarianismo leva o público a pensar que, se aparecer no jornal que a pecuária está virando mais “ecologicamente correta” (talvez o discurso com mais força no marketing contemporâneo), então nós é que estávamos errados, apenas reclamando sem motivo.
É preciso que se denuncie, sim, a barbárie ambiental da pecuária, assim como de qualquer outra indústria. Mas talvez não seja interessante que alardeemos isto como um argumento central contra o consumo de carnes. Fica aí, então, pelo menos esse rápido alerta para que possamos refletir.

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