Dennis Zagha Bluwol – Ecoveganismo

Ficam cuidando de animais enquanto um monte de gente passa fome…

Uma resposta para esta comum pergunta...

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16/04/2010 às 14:48
Por Redação

Atualização: 10/05/2014

Quantos de nós, ativistas pela relação eticamente aceitável com os animais, pelos direitos dos animais, pela abolição da escravidão dos animais, nunca ouviu uma crítica dessas? Dentre tantas reações infundadas contra nossas posições ouvidas nos diálogos cotidianos, esta é uma sempre presente: “se preocupam tanto com animais, enquanto há pessoas passando fome, enquanto há tanta miséria, tantas injustiças sociais…”.

Uma forma comum de responder, praticada por muitos veganos em nervos é: “mas essas pessoas que nos acusam de tratar melhor os animais que as pessoas também não fazem nada pelas pessoas! Apenas precisam de algum argumento para nos criticar, tentar tirar a validade de nossas ações para se sentirem corretos sem precisar repensar as próprias ações e ideias!”.

Concordo que isto é, em muitos casos, verdade. Porém, não pretendo seguir este texto em posição de ataque, nem de defesa. Creio que, se queremos ir além e conseguir de fato comunicar para estas pessoas aquilo em que acreditamos, precisamos aprofundar a questão, revelar as contradições nas opiniões, aumentar nossa compreensão sobre nossa própria causa.
Uma primeira questão é de ordem prática: por que estes que nos acusam entendem que quem ajuda e se preocupa com animais logo não ajuda e se preocupa com humanos? Esta é uma certeza a priori e uma oposição que não se sustenta obrigatoriamente. Pode ser verdade para algumas pessoas, mas não é uma questão lógica obrigatória do tipo um ou outro. Porém, há outras questões em jogo, e é sobre elas que falarei a seguir.

Há um tipo nefasto de consenso em nossa sociedade de que os animais não-humanos são inferiores aos humanos. Esta é uma tradição milenar e encontrou guarida, por exemplo, em filosofias que consideram a razão, aos moldes humanos, como o parâmetro para o merecimento ou não de respeito, assim como em diversas cosmologias que consideram os seres humanos como o centro do mundo. A redução de animais a puros serviçais é muito antiga, mas na modernidade científica, tornaram-se apenas máquinas. Nas sociedades industrializadas, apenas matéria-prima.

Toda esta longa e triste corrente de pensamento e ação deve ser radicalmente questionada: o que é que nos faz valorar algo? O que faz algo ser digno de respeito? É mesmo apenas a razão? É o fato de poder usar uma linguagem semelhante a dos humanos? Para nós, veganos, não. Para nós, todo animal, independentemente de suas características específicas, merece o mesmo direito à vida em liberdade do que um humano. Esta opinião é reforçada se compreendermos que os animais, e isto é certeza para as espécies que mais costumamos explorar, possuem senciência, ou seja, possuem sensibilidade (percebem o mundo) e algum tipo de consciência sobre o mundo percebido. Não é preciso que esta consciência seja do mesmo tipo que a dos humanos para que o ser seja respeitado. Não é preciso que o animal procure interpretações abstratas sobre o porquê das coisas que percebe para que seja respeitado em seus interesses mais fundamentais: não ser preso, não sofrer agressão, não ser submetido à dor, não ser assassinado, não se tornar escravo de outro ser.

Talvez bastasse repetir a frase do filósofo Jeremy Bentham: “Não importa se os animais são incapazes ou não de pensar. O que importa é que são capazes de sofrer”. Porém, para evitar soluções malucas sobre como explorar um animal sem dor, é de grande importância colocar que a questão ética principal não é a dor em si, ou seja, não é possível julgar a moralidade de um ato apenas pela quantidade de dor que gera, pois algo que não gera dor pode também ser uma violência. A questão, portanto, é que os animais não podem ser vistos como propriedade humana, não estão no mundo para nos servir. Esta é a questão mais de fundo do veganismo. É, portanto, uma questão de liberdade, de não exploração.

Deste modo, aproximo novamente a questão dos animais com a questão humana: agir em prol da libertação dos animais das amarras criadas pelos humanos não é menos (nem mais) importante do que agir em prol da libertação dos humanos de suas próprias amarras. Tanto a opressão de animais não-humanos como as entre humanos constituem injustiças, violências desnecessárias baseadas em discriminações e preconceitos sem fundamentos sólidos e seguem a mesma lógica: um grupo acredita ser superior a outro grupo e crê que tal superioridade lhe dá autorização para subjugar e fazer com tal outro o que desejar. A aplicação desta lógica pode se dar, por exemplo, nas relações entre humano e animal, homem e mulher, heterossexual e homossexual, brancos e negros, ricos e pobres, europeus e africanos etc.

Creio que, colocadas as posições acima, o questionamento inicial: “ficam cuidando de animais enquanto um monte de gente passa fome…” não se encontra mais tão absoluto. Tanto animais não humanos quanto animais humanos – nós – são vítimas de modos de vida violentos e injustos, recheados de opressões, baseados na redução da vida a coisa, a matéria-prima, até mesmo criando justificativas morais, políticas e econômicas para tal.

Acho que a relação entre os pares humano-animal e rico-pobre, usada como acusação na pergunta que gera este texto, é de grande importância, se bem entendida, justamente para entender a essência de nossa busca, permitindo inverter a lógica do ataque, transformando-o em uma reflexão construtiva, abrindo, portanto, caminho para um profícuo diálogo com os acusadores: os animais são tidos como seres inferiores, não dignos do mesmo respeito que um humano, assim como em nossa sociedade os pobres são tidos como inferiores, não dignos do mesmo respeito que os ricos.

Dito de outro modo: a humanidade sente-se no direito de explorar os animais para seus próprios fins e para gerar sua própria riqueza material, assim como parte desta mesma humanidade sente-se no direito de explorar a outra parte para alcançar seus próprios fins e para gerar sua própria riqueza material. Reduz-se outros entes, humanos ou não, a coisas cujo fim não é mais a própria vida, mas o fim de outras vidas: tornam-se meios para fins alheios, comumente por falta de opção ou pela força.

Nosso modo de agir, considerando que esta situação injusta existe, também é similar: do mesmo modo como o assistencialismo aos humanos não resolve o que gera os problemas, mas ajuda as pessoas que naquele instante passam fome, frio ou solidão, o cuidado com os animais abandonados, largados nas ruas, por exemplo, é de grande importância para eles, ainda que o problema não seja resolvido enquanto não houver um modo de vida humano realmente não exploratório, não baseado na apropriação de uns pelos outros. Em outras palavras, um modo de vida baseado na liberdade. É este o objetivo do Veganismo.

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