Crônica

Vida de cão sem dono

Duas cadelas vivem nas obras de pedágio de Carapicuíba do Rodoanel Mário Covas, com os trabalhadores. Deles, elas recebem comida e carinho. Mas as obras vão terminar e uma delas...

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18/12/2008 às 16:52
Por Redação

Por Ana Cardilho
em colaboração para a ANDA

Duas cadelas vivem nas obras de pedágio de Carapicuíba do Rodoanel Mário Covas,  com os trabalhadores. Deles, elas recebem comida e carinho. Mas as obras vão terminar e uma delas não tem para onde ir. A cachorra menor será adotada por um dos trabalhadores da obra, o Rubens, mas a maior não tem destino certo…

Moro na rua. Para ser mais exata, moro nas obras do pedágio de Carapicuíba (SP) do Rodoanel Mário Covas. Antes de o meu espaço virar um canteiro de obras, eu vivia num arremedo de praça.

Venho de uma geração que nasceu na rua e foi se virando, aprendendo a sobreviver. Dizem que minha bisavó era uma Boxer, com pedigree. Contam que ela foi abandonada num final de ano, quando os donos decidiram viajar de férias e, sem remorsos nem consideração, soltaram a pobrezinha nas ruas. Já pensou? Eu vivo de calçada em calçada, sou esperta para atravessar avenidas e desviar dos carros, e sempre arrumo comida, água e carinho.

Mas imagino o quanto minha bisa sofreu até entender que os donos não voltariam, até entender que havia sido abandonada, como se não valesse nada, como se os anos em que dormiu ao lado da cama deles não tivessem nenhum significado. Fico pensando que ela, no fundo, era uma criatura forte. Se não fosse não teria agüentado. Sobreviveu e teve seus filhotes. Todos na rua. Todos nascidos sob sol e chuva, todos mais fortes ainda que ela. Já nasciam sabendo que vassouradas e chutes são brindes comuns para quem mora nas ruas.

Mas, nem todas as pessoas são ruins. No meio de gente cruel, tem gente boa que  aparece com alguma comida, um lanchinho, água fresca e atenção. Tem muita gente que divide o prato feito comigo ou me dá metade do sanduíche. Eu sinto de longe o cheiro de quem é bom. Meu focinho sabe, eu me aproximo, rabo abanando e olho bem dentro dos olhos da pessoa, bem lá no fundo. Quando ela sorri eu sei que o dia está ganho. E assim vai, um dia atrás do outro. Procuro não me preocupar, não pensar no amanhã. Só vivo o hoje.
Mas, há alguns meses, chegou esta obra por aqui. Chegaram os operários e muitos deles bem generosos. Almoço e lancho todo dia. Até engordei! Tem uns operários que me adoram! Jogam gravetos que eu vou buscar e trago na boca, me fazem carinho na cabeça e coçam minha barriga. Às vezes, depois do almoço, se fizer muito calor, a gente cochila no chão.

Eles ficaram meus amigos e foi natural quando a Pretinha chegou. A Pretinha é bem menor que eu, peluda e bigoduda. Boazinha e carente. Apanhou muito, foi judiada e tem aquela carinha de “por favor, me ajude”. Brincamos muito nos últimos meses e, quando os operários iam embora, a gente dormia meio perto. Uma protegendo a outra.

Ouvi falar que a Pretinha vai embora com o Rubens. Ele trabalha aqui na obra e é um sujeito alegre, brincalhão. Vive dando risada o Rubens. Gosto dele, acho que a Pretinha tem sorte. Terá uma casa com um dono carinhoso. Quem sabe ele tenha  filhos, quem sabe ela até durma no sofá da sala, hein?! Que vidão! Vai ficar mimada a minha amiga Pretinha. Ela merece!

A obra não vai longe. Está tudo pronto. Muitos operários nem voltaram mais para cá. Quando liberarem o lugar, será um mar de carros. Tenho medo. Como vou passar de um lado para o outro? E sem os operários por aqui, quem vai me dar comida e carinho? Pra onde eu vou? Estou tão acostumada com estas bandas…

Não sei o que vou fazer. Não gosto de me preocupar, mas será que terei a mesma sorte da Pretinha? Será que alguém vai gostar de mim e me levar pra casa? Ou eu vou morrer nas ruas como foi o destino da minha família?
Não quero morrer atropelada. Deve doer muito. Não quero morrer de fome ou frio. Deve demorar e judiar da gente.

Olha só, eu pensando na morte… Que pessimismo…
Não posso me entregar. Tenho que acreditar que vai aparecer alguém. Alguém que me pegue no colo, me dê um nome, uma casa e segurança.
Enquanto isso eu rezo. Ouvi falar de um santo poderoso. Acho que é Francisco de Assis o nome dele. Bonito nome… Então eu rezo: “Valei-me seu Chico de Assis. Valei-me…”

Ana Cardilho é escritora e jornalista. Com um olho na realidade e outro na prosa imaginária conta com mais de 20 anos de experiência em rádio e TV, tendo feito reportagens, edição e fechamento de telejornais e programas, e é ficcionista.

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